DESTERRO. 3

 

1964, sonhos perdidos

 

Em meados da década de 1960, Florianópolis era mesmo uma província. Capital cujos mandatários viviam a sombra dos acontecimentos do país. Como uma ilha no mundo, oligarquias geravam uma classe política subserviente, famílias endinheiradas representavam o poder local. O Brasil moderno se apresentava contestador: revelava imagens, letras, comportamentos e atitudes revolucionárias.  Timidamente nosso Estado mostrava sua cara, isso a partir da organização de trabalhadores e de atividades intelectuais.

Jovem, meu pai ingressou no PCB, o Partido Comunista Brasileiro. O “Partidão”, como foi chamado mais tarde, juntava àqueles que se consideravam “de esquerda”. Bastava ter uma simpatia pelo socialismo para ser comunista, o espectro ideológico do PCB era amplo. Os partidos existentes eram poucos e representavam os interesses dominantes. Multinacionais começavam a lotear o país. O imperialismo americano reinava impiedosamente. Nas paredes de nossa cidade, o “Yankee go home” era substituído por homenagens a Luis Carlos Prestes.

Uma juventude politizada vivia o sonho de transformação social.

Cuba era um assombro, revoluções estouravam pelo mundo afora, na Ásia, na África… O Velho admirava Patrice Lumumba, líder revolucionário no Congo (Já imaginou, eu poderia me chamar Patrice, como ele mesmo tinha me falado uma vez).

O Stalinismo ainda não tinha sido totalmente desmascarado. Para o mundo a possibilidade de igualdade entre os homens era uma possibilidade real. Com democracia o voto permitiria novas mudanças.

Ideologia para viver… Engajamento, palavra pouco compreendida hoje. O mundo estava dividido e era preciso tomar uma decisão, emitir opiniões, posições, fosse quais fossem.

Termino o post fechando um livro que li moleque e que guardo com carinho na minha biblioteca, A MÃE, de Gorki. Nele uma desbotada dedicatória.

“A querida Natalia, a mais bela e humana página da luta da classe operaria”.

Para minha mãe, assinado por Francisco.

Ainda havia espaço para muita ternura, pode parecer ingênuo, se singelamente estas linhas revelassem uma coerência infatigável por uma causa.

Um tempo onde o romantismo era um arco-íris que abrigava sentimentos sem esperar retorno, descarados e intensos, como um filme de Godard.

Naquele ano, germinava ardilosamente um mesquinho e violento projeto de Golpe de Estado que iria mudar o país e minha vida para sempre.

 

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Esta entrada foi publicada em 6 de setembro de 2012 às 16:04 e está arquivada sob Uncategorized. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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