
Solidão. Era nisso que parecia pensar encostado na sombra do muro. Um momento de inusitada paz. Nada havia mudado nas últimas horas.
As imagens granuladas continuavam a mostrar: o jardim; um quarteirão cheio de arvores, tudo mal cuidado. O ponto de ônibus, sempre vazio. O estacionamento.
Era um não viver. Apenas circulava. Um negro magro que sabia andar discretamente por aquelas ruas. O escritório do tráfico era pequeno demais, mal conseguia entrar com o fuzil nas costas. Lá dentro, um interminável ruído de rádio, sinais de conversas cruzadas, sempre. O constante canto da paranóia. A luz vinha pelas telas dos monitores, era o retorno das câmeras colocadas na entrada do morro. Envolto naquele azul, viu chegar os primeiros atiradores.
Sem chance, foi acionar o rádio. Logo veio o estrondo.
Sua última sensação foi não poder engolir a própria saliva. Dois tiros tinham feito um rombo em sua garganta. Ele ainda tentou procurar a granada sobre a mesa, e, nada.
A tomada do Morro
16 quinta-feira dez 2010
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