Aquela era uma noite sem lua num beco do centro da cidade. Uma ratazana prenha arriscava-se a entrar num buraco estreito. Da calçada se ouvia o barulho nervoso de seus dentes rangendo e o som do raspar de um rabo inquieto e sujo. Depressa, toda atrapalhada, ela, enfim, consegue entrar. Lá, na escuridão de um velho cano imundo: expele suas crias. Naquele esgoto depois do parto, ratos maiores e mais velhos surgem de todos os lados. Logo se inicia a disputa entre todos pelos filhotes. Um deus-nos-acuda. Mordidas rápidas, jogos de corpos e pedaços de recém-nascidos levantam merda para tudo que é lado. Ao cabo de tudo, da ninhada só sobrou um. O filho do acaso, escoando pelo ralo enlameado por um sangue escuro: escapa. A mãe excitada e ferida refaz o caminho de volta. Na saída do esconderijo um gato preto, gordo e faminto à espera, impassível.
O dia segue amanhecendo, cinzento, com uma garoa só interrompida mais tarde por raios e uma chuva forte. Uma chuva que entope as bocas dos bueiros daqueles quarteirões, obrigando ratos e baratas a fugir pelas ruas, pelas calçadas, entre latas de lixo: atrás de sobras de comida e de abrigo. Na caçamba aberta de um caminhão de lixo que por aí passava, um filhote faminto, encharcado, começava a viver sua curta vida de rato.